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Livros 24/09/2012

On the Road

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Chegou com muita conversa e sem muito explicar. Veio para aprender a colocar palavras no papel. Entrou com uma mão na frente e outra atrás do Ginsberg. Tagarelava como se fosse um solo be-bop. Sua fala imitava as síncopes de Prez e Bird. Pendurava pedaços de histórias em múltiplos varais. Contos mal amarrados de viagens não terminadas. Pra que um fim? E quem há de se lembrar do começo?

Compañeros no hay camino, se hace camino al andar. E foda-se se a ida de NYC para Denver se dá na base do zigzag. E que puta sorte essa de ter de entregar um carango maneiro em Chicago numa das diversas jornadas de volta. E que som foi aquele que ouviram em São Francisco?

O maravilhoso saxofonista soprava até atingir o êxtase, em um improviso plenamente soberbo com riffs em crescendos e minuendos que iam desde um simples ‘ii-yah!!’ até um louco ‘ii-di-lii-yah!’, flutuando com furor e acompanhados pelo rolar impetuoso da bateria toda queimada por pequenas baganas fumegantes e que era martelada com fervor por um negro brutal com pescoço de touro que estava pouco se lixando para o mundo exterior, apenas surrando ininterruptamente seus tambores arruinados, bum-bum, ti-cabum, bum-bum.

On the Road (Pé na Estrada – Ediouro, 1997) poderia ter sido só isso: a história de um afetado-bipolar-porralôca-sem-destino que faz um pequeno bando de afetados-sem-destino-não-menos-porralôcas cruzar os EUA duma ponta à outra umas tantas vezes. Se isolado, é uma grande obra pequena que Capote chamou de “datilografia; não é literatura não”.

É que o autor queria escrever como se fosse a fala daquele cara que falava pelos cotovelos como se fosse um solo improvisado de jazz e que o tinha procurado para aprender a escrever e acabou ensinando a viajar. Entorna aí uns aditivos naturais e outros artificiais – não esquece o café e uma nova fita pr’aquela Underwood que parece de criança – coloca um rolo de papel sem fim e desafia suas mãos a acompanharem o jorro descontrolado de palavras e onomatopeias que escorrerá da tua cachola. Fluxo de consciência é o nome chique dessa explicitação quase inconsciente. On the Road é o nome do livro que inaugurou o estilo desregulando a arte de escrever.

O livrinho que foi reescrito, rasurado e censurado durante quase uma década ganhou estatura de marco. Virou inspiração, meta ou referência para quase todo mundo que ensaiou alguma autonomia/rebeldia de 1957 para cá. On the Road foi o paraíso e o inferno de Jack Kerouac. Um peso que ele tentou renegar mas carregou para o túmulo.

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